Chão

quinta-feira, 25 de maio de 2017




Eu não sei o que eu vejo em você.


Correção. Eu não sei mais o que eu vejo em você.


Mas continuo correndo atrás, na mais inútil das fábulas, porque eu sou o cachorro que segue o dono que sempre o chuta e maltrata. Eu me derramei em cada poema que escrevi, cada palavra malfadada que cuspi e chorei, em toda linha que era errada até você aparecer. Qual é a graça de não ser para você o que você é para mim? Onde está a diversão em não ser nada mais que um corpo para o seu deleite?



Se estivéssemos no mesmo espaço, você seria o jarro de cristal usado para adornar a casa com flores. Eu sou o vaso velho, todo rachado que não suporta mais água senão vaza, que mais uma queda torna-se seu fim. Eu sou o vaso cansado que não aguenta mais e não tem coragem de encontrar o chão. Qual é a graça de ansiar pelo fim? Onde está a diversão em se derramar em algo que nunca irá transbordar?



Quando tudo acabar, espero que o cachorro encontre um novo dono ou que o vaso quebre de vez, o que vier primeiro.



No fim, as linhas erradas continuam erradas e eu só quero encontrar o chão.




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